Os monos da minha avó

Acho que a minha avó não é como as vossas. Não levem a mal, não é melhor mas (de certeza) não é pior.
A minha avó é peculiar. A minha avó é a verdadeira que aguenta água quente em mãos acabadas de queimar. Eu queimo-me no forno e ando a chorar cada vez que tocam na ferida. Ela também acredita que comemos que nem esfomeados e nunca nos falta com comida, nem pão ou arroz de cabidela.
A minha avó é peculiar e a casa dela carrega as memórias dela e daqueles que a acompanham e que por ela passaram. E isto é muito bonito mas não é nada prático. As limpezas de Páscoa começam com mais de um mês de antecedência e com motivos para tal. Às vezes quase parece uma feira dos trezentos. Era agarrar na quinquilharia toda e fazer uma venda de garagem, não ficasse a garagem dela virada para nenhures.
O móvel é só um mas o espaço que tem é aproveitado ao máximo para pôr mais um santinho, mais uma moldura, mais uma jarra, mais um centro de flores de plástico e uma outra moldura. Disse que lhe vou oferecer uma moldura daqueles que dão para pôr para cima de dúzia e meia de fotografias porque, diz-me ela com todo o amor que está naquele coração mas nunca sai cá fora, gosta de olhar para a cara das pessoas.


Este ano conseguimos desimpedir dois “monos” lá de casa mas, para mal dos nossos pecados, já alguém lhe ofereceu um terceiro. Para o ano há mais limpezas e as deste ano ainda nem acabaram.

O assobio que me acalmou

Estávamos no Verão e as idas ao Porto eram um corridinho. Pouco conheci da cidade porque entrávamos na auto-estrada para sair, meia hora mais tarde, em direção ao Hospital. Numa idade em que as horas parecem dias, estas viagens eram ainda mais dolorosas porque ia lá para saber dele.´
Os cartões de visita nunca chegam, ainda para mais numa família com dez filhos e o dobro dos netos. A sorte dos mais velhos é que mandam nos mais novos e, por razões que a idade ainda não me ajudou a compreender, acham que sabem o que é melhor para uma criança que está em riscos de lidar com a morte, mais uma vez, e só eles vão saber do gigante.
O meu avô era enorme. O meu avô era um sábio. O meu avô era o cavalheiro dos cavalheiros e o mestre de todas as lições. O meu avô era meu padrinho e eu só o descobri, vergonhosamente, muito mais tarde quando me vi obrigada a perguntar aos meus pais quem eram os meus padrinhos, uma vez que nunca tinha tratado ninguém por “madrinha” ou “padrinho”. Pois, eram eles, os meus avós da Baralha, os meus avós do casarão, dos campos, dos cães e do carro espada.
Não pude conhecer melhor o meu avô mas sempre ouvi a sua voz doce e discurso assertivo quando mais deles precisei. Ainda hoje o faço.
Foi de sapatilhas vermelhas que soube que ele partiu, o que me obrigou a ir comprar umas novas porque não caía bem ir de cores vivas para o funeral. Acordei na cama de uma prima porque já todos previam aquilo que no dia anterior eu tinha rezado para que nunca chegasse a acontecer. O telemóvel tocou e eu já sabia o que era, mal ouvi o que a minha mãe me disse, vesti-me de nó na garganta, disse adeus à minha prima e meti-me no elevador onde chorei pela primeira vez, de sapatilhas vermelhas calçadas.
Nesse dia desacreditei-me de um Deus que está lá em cima a olhar por nós. Se estivesse, tinha-me ouvido, a mim e a mais três dezenas de pessoas. Mas também foi neste dia que soube o que era acreditar num bem maior: saber que eles nos olham lá de cima, que nos reviram os olhos e vergam sobrancelhas quando é preciso e que sorriem a maior parte dos dias porque não estão a perder o nosso crescimento, que até nem é assim tão tempestuoso.

E foi com este assobio que comemora a caída do muro de Berlim que eu aguentei os dias seguintes.

Traições que enganam as saudades

No outro dia, fiquei a sentir o tabaco de outro porque tinha o seu cheiro. Lido assim, até pode parecer uma traição e, se pensar muito no assunto, também o entendo assim, mas o coração precisa de combustível quando está mais carente.

Nunca gostei de tabaco. Odeio os dedos em V que seguram o palito de papel que toca os lábios secos e queima à medida que as narinas se encolhem para puxar o fumo que a língua empurra para fora, dando a ilusão de se tratar apenas de um dia gelado e uma respiração mais profunda. O fumo entope-me a garganta e deixa a roupa e cabelo mal-cheirosos, faz-me tossir e deixa-me com lágrimas nos olhos.
Os cigarros são o meu ódio de estimação, só que neles descobri uma forma de enganar as saudades, de o fingir perto de mim e aquecer o coração. O cheiro lembra-me as suas mãos ásperas e duras, a unha excessivamente grande e o seu ar de quem sabe (quase) tudo porque, simplesmente, o sabe.

Posso não falar sempre mas nunca, nunca - caramba -, nunca mesmo me esqueço.

O típico texto sobre não saber que assunto escrever

Na sala, com distrações que me enchem os ouvidos e me desviam o olhar, já escrevi e apaguei vezes sem conta. Já escrevi sobre ceder ao que mais nos faz mal, paixões de segundos e falta de tomates – tudo em textos diferentes e com títulos diferentes (até mesmo sem título). Contudo, bem podia juntar tudo num único texto, só não o vou fazer porque me falta aquele toque divino a que chamam de inspiração.

É este conceito abstrato que me faz não falar sobre as tais paixões de segundos, aquelas que duram um olhar, que nos encantam sem nunca nos darem a oportunidade de nos desencantarmos. Não nos damos ao luxo de conhecer os defeitos do outro, apaixonamo-nos pela capa e idealizamos o conteúdo. Mas, entretanto, já passou – a paixão-pessoa e a paixão-sentimento. Nem sei até que ponto a paixão será um sentimento, é mais um desejo cego, bem mais cego que o amor que combate constantemente com a razão. A paixão é o que nos faz saltar fronteiras, sem medo do que de lá pode vir e com uma sede enorme do que lá vem.
A sorte destas paixões de que falo é que duram tão pouco tempo que o corpo não pede mais e, se nunca ultrapassamos limites, também nunca sabemos o que está do lado de lá. E talvez seja melhor assim.

E para o toque divino o truque está em fazer, apenas.




Estou farta (farta no sentido de o saber de coração e não como estando saturada) de sentir que a minha vida são os outros, os meus poucos mas enormes que fazem de mim aquilo que sou. Só consigo ser feliz se os souber felizes. Ou seja, a minha felicidade está limitada pela felicidade deles, não consigo avançar sem eles avançarem comigo. Quero crescer, viver, olhar para trás e dizer “isto vale bem a pena”. Apreciar a vida como as rimas que escrevo sem noção e que de tão lamechas e parolas me fazem querer rir um bocadinho.
Mas optar pela minha felicidade é tornar-me egoísta e mal agradecida.



Peso nos ombros


Sinto os ombros carregados mas não muito, sempre me deram liberdade para tomar as minhas escolhas e dele sempre ouvi um “não queimes as pestanas”. Ser pai - acho eu – é isso, depositar esperanças, esperar o melhor e passar cada minuto preocupado.
Tenho um caminho pela frente e tantas ramificações que nem sei, a preguiça dentro de mim faz-me querer ir pelo mais fácil mas que não me traz grandes realizações pessoais, os outros, assim que os calcar, vão-me mudar a vida e precisam de tempo, dedicação e esforço. E eles, os meus pais, esperam tanto e merecem tanto que o caminho óbvio é aquele que vai dar “trabalho”. Parece que a preguiça tem fim à vista.
Sinto os ombros pesados mas, na realidade, sou eu quem ainda se apoia nos ombros deles. Todos os dias. Por isso que parecem ficar mais pequeninos com o passar do tempo, é que eu peso-lhes mais à medida que o tempo passa.


Dar sem quê


Nos meus primeiros anos de universidade, falhei na boa educação de tal jeito que ainda hoje me rio da minha falta de jeito para as relações interpessoais.
Tenho um irmão e, dizem os estudos, devia estar habituada a partilhar as coisas. Pois bem, não é que não esteja, só nunca penso que alguém está à espera da minha metade.
Não vai há muito perguntaram-me “É um gelado para dois?” e a minha cabeça rebentou num “NÃO! Isto é bom demais para ter de dar parte a alguém!”. Não é por mal, a sério que não, gosto é de apreciar os prazeres desta vida e vai que comer é um deles.
Agora sem muitas brincadeiras, admiro quem dá sem quê, quem diz que traz porque diz que traz e traz mesmo, quem arranja soluções para problemas que nunca serão seus e quem dá sem olhar a quem. Poucos os há assim e eu tenho o prazer de conhecer uns quantos que guardo na mão esquerda porque a direita mexe muito e tenho medo de os perder.
O altruísmo está nos gestos pequenos e eu sou mais feliz por saber que um bocadinho desse altruísmo está à minha volta, todos os dias.